Sempre gostei de ler. Mas, muito mais do que alguém que gosta d eler sempre quis escrever. Sempre escrevi muitas coisas: trabalhos, artigos, respostas na prova de história, no máximo uma redação do vestibular. Ou melhor, grande mentira! Escrevi poemas, pequenas histórias, coisas bobas que rasguei com vergonha por serem tão bobas. Eu queria mesmo era escrever um grande romance. E eles tiveram vários inícios, todos tiveram o mesmo e trágico fim: a lixeira do Windows XP. Queria talvez escrever contos, como Pedro Salgueiro. Mas a grande verdade por trás dessas linhas é que não sou de escrever grande história mirabolantes, cheias de criatividade, de mistérios, como se tivessem sido vividas, como se o autor já as conhecesse desde sempre. Nunca entendi de fato de onde vem tudo isso que as pessoas escrevem. Nada nunca veio para mim. Sou afeita as coisas cotidianas, aos grandes problemas diários sem solução. O auge da minha criatividade se resume a imaginar um desfecho ridículo para uma cena completamente corriqueira: imagine o investimento para um festa de aniversário, convites enviados, a lasanha encomendada, doces prontos, salgados à mesa, o bolo com as ridículas velinhas de número formando uma idade, 18. A aniversariante sentada entre os balões, chapeuzinhos na cabeça, língua de sogra a postos, a família ao redor e ninguém chega. Todos ficam com aquela cara de palhaço de circo decadente. Aí eu penso: "Seria uma cena no mínimo hilária e decepcionante". É meus caros, é nisso que se resume minha criatividade. Às vezes penso em rir disso. Às vezes penso que nasci para as crônicas de cada dia. Ou às vezes talvez eu tenha nascido não para escrever, só para ler, ou para não ser lida.